sábado, 30 de julho de 2011

I Ain't No Nice Guy

Parceria essa feita pra abalar com os sustentáculos do mundo. Acho que por isso escolheram algo bem levinho.


domingo, 24 de julho de 2011

sábado, 23 de julho de 2011

ARABELLA - Tomo I {Heresia}

Cap. 4
Mercenários


Em Portland, os servos do castelo de Lord Moey não paravam de trabalhar desde cedo. Haveria um jantar à noite, onde um dos convidados era o próprio Lord Alexander Frost, Conde de Dorset. Um dos vassalos do duque, o Marquês Joseph McFair, estava prosperando rapidamente em seus negócios com os comerciantes de Veneza, que traziam para o reino as iguarias do oriente, bem como artigos para as principais feiras do condado. Lord Frost pretendia conhecer este homem cuja frota de navios trazia riquezas para Dorset. Mas corria um boato pelo palácio que o principal objetivo de Landaff com esse jantar era obter apoio do conde para capturar e levar a julgamento a filha da parteira que matara sua bela filha Mattie.

Todos sabiam do anúncio posto por Lord Moey, contratando mercenários para capturarem a garota. Ele havia espalhado arautos por todo o condado a alguns dias, e no fim daquela tarde chegaram três estranhos ao castelo, querendo falar com o duque. Os serviçais acreditavam que eles haviam sido contratados por seu senhor, pois ficaram para o jantar. Por isso, não foi surpresa quando dois deles desceram dos aposentos até o salão principal, que estava cheio de criados, todos eles bastante atarefados preparando o banquete de logo mais.

Os mercenários pareciam estrangeiros, dada a sua aparência não muito sutil. Um deles, de cabelos castanhos, usava um tecido xadrez em formato de saia – o kilt – como fazem os highlanders do norte da Escócia, enquanto o outro era um enorme ruivo com tranças e um grande machado, lembrando os antigos saxões que invadiram a Britânia séculos atrás. O terceiro, que não estava com eles, era um irlandês esguio de cabelos negros e olhos verdes, que carregava consigo uma espada e um alaúde, embora aparentasse ser forte demais para um músico, principalmente se comparado a Michael Summers, o menestrel da corte de Moey, e outros menestréis que se vêem nos pomposos salões dos nobres.

O escocês se aproximou de uma das criadas, perguntando pela castelã, e a garota apontou para uma senhora robusta no meio da sala que gesticulava de forma a comandar o enxame de servos, que entrava e saía pelas portas do salão. Em seguida, a jovem criada se esquivou dos guerreiros e retornou aos seus afazeres. Os mercenários se dirigiram à castelã, que já os havia visto e os aguardava em silêncio enquanto atravessavam o salão em sua direção.

– Com licença, minha senhora. – falou o escocês – Meu nome é Bruce McLaggen, e meu amigo se chama William Kent. Nós fomos contratados pelo Duque de Portland para procurar uma garota que estaria presente quando sua filha morreu. A senhora é?

– Ms. Lilly Finnegan. – respondeu, desconfiada. – O que querem de mim?

– Ms. Finnegan! – Bruce olhou mulher diretamente nos olhos, e prosseguiu cautelosamente. – A senhora viu a garota quando ela esteve aqui, certo? Poderia, por favor, nos dar qualquer informação que nos ajudasse a encontrar a pista da fugitiva?

– O que você quer saber sobre a menina, meu filho?

– Bem, Lord Moey nos contou que uma parteira chamada Madeleine foi solicitada por sua esposa para tratar da filha dele, Mattie, e que essa parteira a matou. O duque falou também que a garota que devemos capturar é a filha da parteira, que estava presente quando Mattie morreu. Acredito que a senhora saiba o que aconteceu com ela depois que as duas mulheres partiram do castelo, e isso talvez nos dê uma pista de seu paradeiro. Poderia me contar algo que talvez o duque não saiba?

A castelã olhou em volta, se certificando de que estava tudo em ordem, fez um gesto para que os rapazes a acompanhassem até um canto da sala, e começou a falar rápido e em voz baixa.

– Não devem dizer a ninguém que lhes contei essas coisas. – começa ela, um pouco insegura. – A parteira não teve culpa da morte da menina. Mattie estava grávida de quase seis luas, e acredito que a mãe dela tenha obrigado Madeleine a fazer o aborto. Quando a menina morreu, Lady Caroline nos proibiu de falar sobre o que aconteceu. Contou ao duque que Madeleine tinha sido chamada para curar Mattie de um descontrole das regras, e que em vez disso a parteira a matou com suas ervas. Madeleine foi queimada como bruxa, e agora Lord Moey quer caçar Arabella, a filha da parteira, apenas porque ela estava presente no dia que Mattie morreu, ajudando sua mãe, e por isso milorde acredita que a pobre garota ajudou a matar sua filha.

Bruce olhava espantado para a mulher. Ela continuou a falar, vendo que eles permaneciam calados, esperando para ouvir mais.

– Estou contando essas coisas para vocês porque meu senhor está sendo enganado. Conheci Madeleine, ela fez todos os meus cinco partos, e sei que era uma boa mulher. Quem matou Mattie foi a própria mãe dela, porque a menina estava apaixonada pelo filho do moleiro. Lady Caroline jamais permitiria que essa criança nascesse, nem que para isso precisasse matar sua própria filha, como de fato o fez. Mas se vocês disserem a alguém que lhes contei isso, será meu pescoço que estará na forca. Milady não costuma perdoar aqueles que traem sua confiança.

– Não se preocupe, Ms Finnegan. Não pretendemos revelar o que ficamos sabendo, e muito menos a fonte. Tenha certeza que não falaremos da senhora, nem do que nos contou agora.

Intrigados, os mercenários voltaram para os aposentos que haviam sido designado para eles, e quando entraram se depararam com o irlandês, que os aguardava dedilhando seu alaúde. Ele parecia bastante ansioso, a julgar pelo modo que largou o instrumento na cama quando eles entraram no quarto, então os dois se acomodaram para ouvir primeiro o que ele tinha a dizer.

– Eu explorei os corredores e entreouvi uma conversa interessante. Não foi dita em inglês, mas numa língua mais antiga, quase desconhecida, e pelo que eu pude compreender, tem pessoas nesse castelo que não querem que encontremos a menina.

– Como assim? – perguntou William.

– Escutei pelo vão da porta de um dos quartos uma conversa entre um lorde e sua esposa, e parece que a mulher está preocupada com o destino da tal Arabella. Disse que não podia permitir que a encontrassem.

– Pois nós também descobrimos coisas interessantes. – começou Bruce. – Encontramos a castelã no salão principal. Ela nos contou que a filha do duque estava grávida, e morreu quando a mãe obrigou a parteira a fazer o aborto. Parece que Lady Caroline é a verdadeira responsável pela morte de Mattie.

– É, amigos! – exclamou o galês. – Pelo jeito nós nos metemos em um vespeiro.

– Vespeiro ou não, o duque já nos adiantou parte da recompensa. – argumentou o escocês. – Além disso, nos deu três cavalos e um salvo-conduto com seu brasão. Partiremos ao amanhecer para procurar a garota, seja ela culpada ou não. Mas agora é melhor nos apressarmos. Lord Moey nos convidou para o jantar, pode ser que descubramos mais coisas interessantes lá. Procurem não beber muito.

– Ficarei atento aos convidados da festa. – concordou Ian, e eles se ocuparam em arrumar-se para o jantar logo mais.

***

Mais tarde, os rapazes desceram ao salão de jantar, sentando-se à mesa, onde identificaram Lord Alexander Frost à direita do duque, e sua esposa Caroline Moey sentada ao seu lado, os três conversando em voz baixa. Viram também o casal cuja conversa Ian havia escutado. O bardo perguntou ao comensal ao seu lado se os conhecia, e este informou que eram os McFair, marquês e marquesa de Weymouth. Informou também que Lord Moey oferecia este jantar para apresentar formalmente Lord Joseph McFair e sua esposa Alexia ao Conde de Dorset. O bardo olhou na direção dos dois, notando que eles discutiam algo aos cochichos, com as cabeças juntas e os rostos tensos.

Algum tempo depois, Moey ergueu-se de sua cadeira, acenando com um gesto para que os McFair fizessem o mesmo. Ele apresentou o casal ao conde e aos presentes, elogiando Lord McFair pelos seus bem sucedidos negócios com a França, que traziam excelentes produtos para as feiras, e riquezas para o condado. Lord Frost recompensou o marquês com algumas honrarias, e os três nobres em seguida começaram a conversar entre si, discutindo os planos que tinham para Dorset.

A ceia foi servida, e aos poucos o vinho foi tornando a festa mais barulhenta. No meio do salão, um menestrel animava a festa, cantando canções alegres e provocando os comensais a cantar também e a pedir canções. Era Michael Summers, menestrel do Duque de Portland, famoso por suas baladas épicas e canções de viagem. Bruce e William olhavam para o casal de Weymouth, que Ian O’Connel havia apontado, mas este observava atentamente a performance do menestrel.

Nesse momento, Michael fez um movimento amplo com as mãos, deixando visível uma marca na palma que, embora bastante apagada, Ian conseguiu identificar como sendo a estrela de cinco pontas, um dos símbolos mágicos da antiga religião pagã. Ele não tinha essa tatuagem, porque na Irlanda o cristianismo era forte demais para permitir que esse tipo de sinal passasse impune, mas sabia que na Inglaterra aquele era um sinal que marcava a iniciação dos bardos e das bruxas. Não compreendia porque a Inquisição ainda não havia descoberto a existência dos bardos, herdeiros dos segredos místicos dos antigos druidas daquelas terras. Talvez esse desinteresse se devesse ao fato de que bardos são artistas – e homens –, e por isso os padres não viam sinais de magia nessas tatuagens. Mas o mais interessante é que se tratava do menestrel da corte do próprio Duque de Portland. Será que Moey sabia que seu músico particular era um bardo?

William Kent, que não havia desviado o olhar dos McFair por um só momento, tirou O’Connel de seu devaneio com um leve empurrão em seu braço. Assim que conseguiu chamar a atenção dele, William fez um gesto discreto com a cabeça, convidando-o a ver o que estava acontecendo. Foi quando ele percebeu que os McFair estavam se levantando da mesa, expressando suas desculpas ao conde e aos anfitriões por estarem se retirando mais cedo. Os rapazes confabularam rapidamente sobre o que fariam em seguida, e decidiram se retirar também. Dirigiram-se até a cabeceira da mesa, e com a desculpa de terem que acordar cedo na manhã seguinte, saíram o mais rapidamente possível sem levantar suspeitas de suas intenções. Eles tentaram alcançar o casal antes que chegassem aos seus aposentos, mas quando chegaram à porta do quarto dos McFair, ela estava trancada. Bateram, mas não houve resposta. Tentaram uma segunda vez, e nada. Decidiram então dormir, porque de qualquer maneira deveriam realmente acordar cedo, pois partiriam para Dorchester na manhã seguinte. O irlandês tinha uma amiga naquela cidade, e talvez ela pudesse ajudá-los a encontrar a garota-bruxa que estavam caçando. Seu nome era Rayne Tyndale, e ela conhecia praticamente toda a Inglaterra, pois viajava com um grupo de artistas pelas feiras. Esperava encontrá-la em Dorchester, pois sua feira era a maior do condado, além de ser a cidade natal da garota, e ele sabia o quanto Rayne gostava daquele lugar.

Partiram ao amanhecer, depois de passarem pelas cozinhas para se despediram de Ms. Finnegan, que gentilmente os abasteceu com cereais, carne salgada e o pão seco, feito com quase nenhum fermento, para que não estragassem em poucos dias. Então eles apanharam os cavalos nos estábulos e seguiram viagem, contando que chegariam a Dorchester no início daquela tarde se cavalgassem a manhã inteira, sem descanso. Ao entrar na cidade, depararam-se com a feira já em seu final, e uma trupe de malabaristas se apresentava em um pequeno palco improvisado. Ian se aproximou da cesta de coleta e jogou algumas moedas, localizando Rayne no meio dos malabares. Ela retribuiu-lhe o olhar, acenando com a cabeça pra indicar que o vira, e continuou o espetáculo. Quando a apresentação terminou, ela se afastou da trupe e veio falar com o irlandês.

– Ora, se não é o meu velho amigo Ian O’Connel, o irlandês de dedos ágeis e língua ferina! – cumprimentou ela, zombeteira. – O que o traz a Dorset?

– Fui contratado pelo Duque de Portland para encontrar uma garota fugitiva. – respondeu o bardo. – Pode nos ajudar, Rayne?

– Ah, isso! – resmungou a garota. – Eu vi o anúncio da recompensa, Lord Moey mandou um dos seus arautos para cá. O que eu ganho se ajudar vocês?

– Que tal uma peça de ouro?

– Uma peça? Que mixaria! Cinco, e não se fala mais nisso!

Ian abriu os braços, divertido, estendendo a mão para a acrobata.

– A humilde e generosa Rayne Tyndale! Três moedas, então? Pelos velhos tempos?

A garota riu e apertou a mão do bardo.

– Fechado! Para onde pretendem ir?

– Lord Moey nos informou que a garota provavelmente se escondeu na floresta do Vale de Blackmore. – contou ele.

– Na floresta assombrada? – perguntou a acrobata, surpresa.

– Sim, ela fugiu para lá. Pode nos guiar pelo vale, Rayne?

– Bem, árvores não são minha especialidade, mas conheço um caçador que mora na entrada do vale. Seu nome é Luke Callot, e se há alguém no condado que conhece a Floresta de Blackmore, esse alguém é o Luke.

– Então vamos procurar esse caçador.

O grupo seguiu então para o Vale Blackmore, em busca do guia que os levaria para o coração da floresta assombrada.

Trecho de ARABELLA